Se existe um orixá que atravessou as fronteiras das religiões de matriz africana para se tornar um símbolo de toda a cultura brasileira, esse orixá é Iemanjá.
Ela está nos versos de Dorival Caymmi. Nas telas de Djanira. No coração dos pescadores que jogam flores ao mar todo 2 de fevereiro. Nas preces silenciosas das mães que velan pelos filhos. Na memória ancestral de um povo que, mesmo em cativeiro, nunca esqueceu a Grande Mãe das Águas.
Mas você realmente sabe quem é Iemanjá? Sua história completa, seus símbolos, suas oferendas, o que ela governa, como é celebrada e quem são seus filhos?
Este guia completo vai te mostrar tudo:
- Quem é Iemanjá — origem, nome e significado
- A história e lenda completa da Rainha do Mar
- Iemanjá na Umbanda e no Candomblé — semelhanças e diferenças
- Atributos sagrados: cores, símbolos, ferramentas e o Abebê
- Filhos de Iemanjá — como são, seus dons e desafios
- Oferendas e ervas sagradas — o que oferecer e como
- A Festa de Iemanjá — as celebrações regionais do Brasil
- Sincretismo com os santos católicos
- FAQ com as perguntas mais buscadas
Quem é Iemanjá? Origem e Significado do Nome

A Rainha do Mar e Mãe dos Orixás
Iemanjá é o orixá feminino das águas — a Rainha do Mar, a Grande Mãe, a divindade mais popular do Brasil. É ela quem governa os mares e oceanos, protege os pescadores, vela pelos navegantes e cuida do coração emocional de todos os seus filhos.
Seu nome tem origem nos termos do idioma iorubá “Yèyé Omo Ejá”, que significa literalmente “mãe cujos filhos são como peixes” — uma imagem poética de abundância e geração que diz tudo sobre sua natureza: uma mãe cujos filhos são incontáveis como os peixes do mar.
Na Nigéria, ela é conhecida como Yemọjá e seu culto principal está associado ao Rio Ogun, no estado de Oxum. Não é por acaso: Iemanjá é, originalmente, uma divindade das águas doces — o rio que deságua no oceano. No Brasil, durante a diáspora africana, ela assumiu plenamente o domínio do mar salgado, tornando-se a rainha absoluta de todas as águas.
Os Muitos Nomes de Iemanjá
No Brasil, Iemanjá é conhecida por vários nomes e títulos que revelam diferentes aspectos de sua personalidade e poder:
- Janaína — o nome mais popular no folclore brasileiro, especialmente no Rio Grande do Sul
- Dona Janaína — tratamento carinhoso e respeitoso
- Rainha do Mar — título que resume seu domínio
- Princesa de Aiocá / Princesa do Mar — títulos que exaltam sua realeza
- Sereia do Mar — referência à sua aparência na iconografia popular
- Inaé, Ísis, Maria, Mucunã — outros epítetos que atravessam culturas
- A Afrodite Brasileira — título que reconhece seu papel como símbolo do amor e da beleza feminina
Por Que Iemanjá é Considerada Mãe de Todos
Na mitologia iorubá, Iemanjá teria ajudado Olodumaré na criação do mundo e de seu ventre nasceram quase todos os orixás, por isso ela é considerada “A Grande Mãe”. Ela também é reverenciada como “a protetora de todas as cabeças” — na cerimônia de Bori no Candomblé, onde se cuida espiritualmente da cabeça do iniciado, sempre se rende homenagem a Iemanjá primeiro.
No sentido mais profundo, todos os seres humanos — independentemente de origem ou religião — são filhos de Iemanjá. Ela é o princípio feminino da criação, o ventre das águas de onde toda vida emerge.
A História Completa de Iemanjá
As Origens: Filha de Olokun
Iemanjá é filha de Olokun, o soberano dos mares profundos — o orixá das profundezas abissais que nenhum olho humano alcança. Ainda criança, seu pai lhe deu um pote contendo uma poção poderosa: deveria guardá-lo com cuidado e quebrá-lo apenas em situação de perigo extremo, pois ele teria o poder de transformá-la e salvá-la.
Crescendo com esse presente sagrado guardado em seu coração, Iemanjá se tornou uma jovem de beleza extraordinária — e, como acontece com os poderosos, sua vida foi marcada tanto pelo amor quanto pela dor.
O Primeiro Casamento: A Traição de Oduduá
Iemanjá se casou com Olofin-Oduduá, com quem teve dez filhos que se tornaram orixás. Para amamentá-los a todos, seus seios cresceram enormemente — sinal de uma maternidade tão generosa que transbordava os limites do corpo.
Mas Oduduá não soube honrar esse amor. Em um momento de desequilíbrio e crueldade, ele passou a caçoar dos seios de Iemanjá — aqueles mesmos seios que alimentaram seus filhos, que se tornaram as divindades do mundo. Ferida no que tinha de mais sagrado, Iemanjá abandonou o lar, a cidade de Ifé, e fugiu em direção ao oeste.
O Segundo Casamento e a Nova Traição
Em sua jornada, Iemanjá conheceu Okerê e se apaixonou. Antes de aceitar se casar com ele, ela estabeleceu um acordo sagrado: Okerê jamais poderia zombar de seus seios, jamais usaria aquele ponto de dor como arma.
Por muito tempo, viveram felizes. Mas um dia, alcoolizado, o rei esqueceu sua promessa — ou, pior, não se importou com ela. Novamente, aquela ferida foi aberta. Iemanjá, pela segunda vez traída no que era mais sagrado, decidiu partir para sempre.
A Fuga, a Transformação e o Mar
Em sua corrida desesperada, Iemanjá quebrou o pote com a poção sagrada que seu pai lhe dera. A poção a transformou imediatamente em um rio caudaloso, que corria livre em direção ao oceano.
Mas Okerê, que não queria perder a esposa amada, transformou-se em uma montanha enorme, posicionando-se no caminho do rio para barrá-lo. As águas de Iemanjá ficaram represadas, forçadas a contornar o obstáculo, sem conseguir alcançar o destino.
Foi então que Iemanjá chamou seu filho Xangô. Com um único raio furioso, o senhor dos trovões partiu a montanha ao meio — e o rio de Iemanjá finalmente correu livre, seguindo seu caminho até encontrar o oceano.
Ao adentrar no oceano, Iemanjá não perdeu a si mesma — ela se expandiu. Tornou-se a Rainha do Mar: não mais o pequeno rio represado, não mais a mulher ferida, mas a imensidão das águas que abraça todos os continentes.
A lenda ensina: as mais profundas dores, quando atravessadas com coragem, nos transformam em algo muito maior do que éramos antes.
Iemanjá na Umbanda e no Candomblé
Iemanjá na Umbanda
Na Umbanda, Iemanjá é a Orixá da Geração — regente da Segunda Linha, aquela que governa os mistérios da criação e da fertilidade. É a mãe por excelência: acolhedora, protetora e profunda como o mar.
Na doutrina umbandista, Iemanjá governa não apenas as águas físicas, mas as águas do inconsciente — as emoções, os sonhos, a vida interior que cada ser carrega. Ela cuida da cabeça e do coração de quem a cultua.
É importante destacar que na Umbanda, o duplo aspecto de Iemanjá como mãe e como força da fertilidade em sentido amplo foi desenvolvido plenamente, tornando-a uma das divindades mais amadas e acessíveis ao povo brasileiro.
Iemanjá no Candomblé
No Candomblé, Iemanjá é a Yabá (orixá feminino) mais popular do Brasil. É considerada a “protetora de todas as cabeças” — na cerimônia do Bori, sempre se presta homenagem a ela primeiro, pois é ela quem vela pelo orí (cabeça espiritual) de todos os iniciados.
No Candomblé Ketu, Iemanjá possui várias qualidades (faces) distintas, cada uma com características, cores e histórias próprias. Entre as principais: Iemanjá Awoiô, Iemanjá Iyamassê, Iemanjá Ogunte (mais guerreira, associada a Ogum), entre outras.
A Transformação de Rio para Mar — A Singularidade Brasileira
Um dado fascinante da história de Iemanjá é que, na África, ela era originalmente uma divindade dos rios — especialmente do Rio Ogun, na Nigéria. Quando os povos iorubás chegaram ao Brasil como escravizados, e se depararam com a imensidão do oceano Atlântico, algo se expandiu na memória e na fé: Iemanjá passou a ser a Rainha do Mar, incorporando toda a saudade das águas que os trouxeram para longe da terra natal.
É uma das ressignificações mais poéticas da diáspora africana: a dor da travessia pelo oceano transformou Iemanjá, a divindade dos rios, na soberana de todas as águas. O mar que os aprisionou tornou-se o mar que os protegia.
Os Atributos Sagrados de Iemanjá
Cores
As cores de Iemanjá são o azul (em todas as tonalidades, do azul-claro ao azul-marinho) e o branco. O azul representa as águas, o céu, a profundidade emocional e a serenidade. O branco representa a pureza, a espuma do mar e a luz que reflete nas ondas.
Em algumas tradições, o prata também está presente — associado à lua, que governa as marés, e ao brilho das estrelas refletidas no oceano à noite.
O Abebê — O Espelho Sagrado
O símbolo mais característico de Iemanjá é o abebê — um espelho circular com cabos longos, frequentemente rodeado de leque de penas ou metal prateado. O abebê é muito mais do que um acessório: é sua ferramenta sagrada de trabalho.
O espelho representa a capacidade de Iemanjá de ver tudo — o que está na superfície e o que está no fundo. Ela conhece a verdade dos corações, assim como o mar conhece todos os segredos que lhe são confiados. O espelho também representa a beleza, a vaidade sagrada e o poder de reflexão — de olhar para si mesmo com honestidade.
Outros Símbolos e Ferramentas
- Abebê (espelho com leque): Ferramenta principal, símbolo da visão e da beleza
- Espada ou lança de metal (em algumas qualidades, especialmente Iemanjá Ogunte): Sua face guerreira
- Coroa prateada: Realeza sobre as águas
- Estrela do mar e conchas: Elementos do seu domínio
- Âncora: Proteção dos navegantes e pescadores
- Pente de prata: Sua vaidade sagrada — ela cuida dos próprios cabelos com amor
Dia, Data e Saudação
- Dia da semana: Sábado
- Datas principais: 2 de fevereiro (Festa de Iemanjá — Salvador e todo o Brasil) / 8 de dezembro (Nossa Senhora da Conceição — São Paulo e interior) / 31 de dezembro (Réveillon no Rio de Janeiro)
- Saudação: “Odoyá!” — que significa “Salve a Senhora das Águas!” / “Salve a grande mãe!”
- Também se usa: “Adoci-yaba!” — “Salve a Rainha!”
O Sincretismo com os Santos Católicos
Iemanjá possui correspondência com várias figuras femininas do catolicismo, dependendo da região e da tradição:
| Santa | Correspondência | Região |
|---|---|---|
| Nossa Senhora dos Navegantes | Protetora dos que navegam nas águas | Sul e Nordeste |
| Nossa Senhora da Conceição | Mãe imaculada, celebrada em 8/dez | São Paulo, interior |
| Nossa Senhora das Candeias | Celebrada em 2/fev, luz sobre as águas | Bahia |
| Nossa Senhora da Piedade | Mãe que acolhe o sofrimento dos filhos | Diversas regiões |
| Virgem Maria | A Grande Mãe do catolicismo | Nacional |
A multiplicidade de correspondências não é contradição — é reflexo da imensidão de Iemanjá. Assim como o mar tem muitas faces dependendo da costa onde bate, a Grande Mãe das Águas se manifesta de formas diferentes para cada comunidade que a venera.
Para entender a história completa do sincretismo: Santos Católicos na Umbanda: O Guia Completo | Nossa Senhora Aparecida na Umbanda
As Oferendas para Iemanjá
As oferendas a Iemanjá são um ato de amor e gratidão. Devem ser feitas com intenção clara, coração aberto e, sempre que possível, entregues próximas à água — beira de mar, margem de rio ou lago.
Oferendas Tradicionais
Flores: Rosas brancas e azuis são as preferidas. Também se oferecem lírios, palmas brancas, orquídeas brancas e crisântemos. As flores representam beleza, leveza e o desejo de agradar a Grande Mãe.
Perfumes e sabonetes: Iemanjá é vaidosa e ama presentes que celebrem a beleza feminina. Perfumes delicados, sabonetes perfumados e óleos florais são muito bem-vindos.
Espelhos e pentes: Pequenos espelhos e pentes de plástico ou madeira, como presentes à sua vaidade sagrada.
Frutas claras: Melancias, melões, uvas brancas, maçãs — frutas leves e com muita água.
Alimentos rituais: Manjar branco, cocada branca, arroz com leite, mingau de tapioca — alimentos brancos, suaves e adocicados.
Mel: Símbolo de doçura e abundância.
Velas: Sempre azuis e brancas.
Como Fazer as Oferendas
A forma mais tradicional é reunir as oferendas em um cesto ou barquinho artesanal e lançar ao mar, durante a noite ou ao amanhecer, com preces de gratidão e pedidos. Na impossibilidade de chegar ao mar, podem ser entregues à beira de um rio ou lago.
As oferendas são feitas preferencialmente aos sábados, ou nas datas festivas de Iemanjá. O estado de espírito importa tanto quanto os materiais — vá com coração sereno, gratidão genuína e fé.
Importante: Sempre oriente-se com seu pai ou mãe de santo para oferendas mais elaboradas ou pedidos específicos. Cada terreiro tem suas tradições e protocolos próprios.
As Ervas Sagradas de Iemanjá
As plantas sagradas de Iemanjá são ligadas à água, ao aroma, à feminilidade e à cura emocional. São utilizadas em banhos de limpeza, purificação e atração:
Ervas principais:
- Alfazema (lavanda): A erva mais associada a Iemanjá — usada em banhos de paz, serenidade e atração. Perfume que ela ama
- Jasmim: Flor de aroma delicado, ligada à feminilidade e ao amor
- Flor de laranjeira: Pureza, fertilidade e alegria
- Rosa branca: Amor puro e maternal
- Lágrima de Nossa Senhora (Coix lacryma-jobi): Erva das águas, usada em rituais de cura emocional
- Hortênsia: Beleza e abundância
- Musgo marinho: Direto do domínio de Iemanjá — purificação profunda
- Pata de vaca: Equilíbrio e saúde
- Malva branca: Suavidade, proteção e limpeza
- Erva de Santa Luzia: Proteção da visão e clareza interior
- Lírio do brejo: Beleza das águas, sensibilidade
Banho básico de Iemanjá: Ferva 1 litro de água e despeje sobre alfazema, jasmim e rosa branca. Deixe esfriar. Ore a Iemanjá pedindo paz e clareza emocional. Tome o banho da cabeça aos pés, deixando secar naturalmente.
Para aprofundar o uso das ervas: Ervas Sagradas da Umbanda: Guia Completo
Filhos de Iemanjá: Quem São e Como São
Como Identificar um Filho de Iemanjá
Ser filho ou filha de Iemanjá significa ter este orixá como regente espiritual principal — o orixá de cabeça que governa a personalidade e a missão de vida. A identificação confiável vem sempre do jogo de búzios com um babalorixá ou ialorixá experiente, ou da indicação de um médium no terreiro.
Os Dons dos Filhos de Iemanjá
Natureza maternal profunda: Independentemente do gênero, filhos de Iemanjá são protetores natos. Assumem os problemas dos outros como se fossem seus. Nas grandes famílias, há sempre um filho de Iemanjá pronto a envolver-se com os problemas de todos.
Força emocional e empatia: Sentem as emoções com profundidade de oceano. Possuem uma capacidade rara de perceber o que os outros estão sentindo, mesmo quando estes não dizem nada.
Lealdade absoluta: Quando Iemanjá aceita alguém em seu coração, é para sempre. Seus filhos fazem o mesmo — amam com constância e defendem quem amam com ferocidade.
Charme e presença: Filhos de Iemanjá se destacam naturalmente em qualquer ambiente. Possuem gosto refinado, elegância natural e um jeito de se apresentar que chama atenção sem que precisem se esforçar para isso.
Determinação: São voluntariosos e decididos. Quando colocam algo na cabeça, raramente desistem. Sua teimosia é proporcional à sua força.
Criatividade: Fazem sucesso em profissões que demandem criatividade — arquitetura, artes, escrita, jornalismo, publicidade, música. São excelentes em trabalhos que unem sensibilidade e técnica.
Os Desafios
Instabilidade emocional: Como o mar tem calmaria e tempestade, os filhos de Iemanjá oscilam entre a generosidade infinita e a fúria devastadora. Quando irritados, podem ser bastante destrutivos — como o mar em uma tempestade. Quando se sentem inseguros ou traídos, a raiva que emerge surpreende a todos.
Possessividade e ciúme: O amor intenso de Iemanjá pode se tornar sufocante. Seus filhos são protetores ao ponto de se tornarem possessivos — tanto com parceiros quanto com amigos e família.
Dificuldade em perdoar: Custam muito a confiar em alguém. Mas quando finalmente confiam e são traídos, o rancor pode ser duradouro. Não esquecem facilmente uma ofensa.
Sedentarismo e apego ao lar: Detestam mudanças bruscas, viagens longas, hotéis desconhecidos. Precisam de seu espaço familiar para recarregar. A rotina e o lar são sagrados para eles.
Tendência ao controle: Gostam de estar no comando das relações. Se não trabalhado, isso pode se tornar um padrão de controle que afasta as pessoas que amam.
Características Físicas Típicas
Filhos de Iemanjá tendem a ter corporalidade generosa — corpo forte, ossatura grande, presença marcante. A vaidade é intensa: mesmo com poucos recursos, encontram formas de se apresentar bem. A sofisticação está sempre presente, de uma forma ou outra.
Profissões Comuns
Educação, psicologia, medicina, artes, gastronomia, arquitetura, trabalho social. Qualquer profissão onde possam cuidar, criar e estar em contato próximo com pessoas.
A Festa de Iemanjá no Brasil
Iemanjá é o orixá mais popular do Brasil — e a prova mais visível disso são as celebrações que acontecem em praticamente todo o litoral brasileiro, reunindo milhões de pessoas de diferentes religiões, ou sem religião alguma, que simplesmente se sentem atraídas pelo chamado da Grande Mãe das Águas.
Salvador — 2 de Fevereiro: A Festa Mais Tradicional
A Festa de Iemanjá do Rio Vermelho, em Salvador, é a celebração mais tradicional do Brasil. Todo dia 2 de fevereiro, pescadores e devotos carregam presentes e oferendas num cortejo até a praia, onde os presentes são embarcados e levados ao mar.
Em 2023, a cidade ganhou uma nova escultura para a celebração — uma mulher preta, com traços africanos e cabelos com dreads, substituindo a representação tradicional de mulher branca de cabelos lisos que existia há mais de cem anos. Uma afirmação poderosa da identidade afro-brasileira do culto.
Rio de Janeiro — 31 de Dezembro: O Réveillon de Iemanjá
No Rio de Janeiro, as homenagens a Iemanjá acontecem na virada do ano — 31 de dezembro. Milhões de pessoas vestem branco e vão às praias da cidade lançar flores ao mar, pulando as sete ondas e fazendo pedidos para o ano que começa.
Esta fusão entre o Réveillon e a homenagem a Iemanjá é uma das manifestações mais genuínas da espiritualidade popular brasileira: um ritual de gratidão ao ano que passou e de esperança entregue ao cuidado da Grande Mãe.
São Paulo e Baixada Santista — 8 de Dezembro
Em São Paulo e na região da Baixada Santista, a homenagem a Iemanjá acontece em 8 de dezembro — data de Nossa Senhora da Conceição, com quem Iemanjá é sincretizada nessa região. Centenas de terreiros descem a serra até o litoral para entregar suas oferendas ao mar.
Pelo Brasil Afora
As festas de Iemanjá acontecem hoje ao longo de toda a costa brasileira, assim como em cidades litorâneas do Uruguai e da Argentina. Há estátuas de Iemanjá erguidas por federações de Umbanda e Candomblé em várias cidades costeiras — símbolos visíveis de uma fé que transbordou os terreiros e se tornou patrimônio cultural da América do Sul.
Como Honrar Iemanjá no Dia a Dia
Você não precisa morar no litoral nem ter acesso a um terreiro para se conectar com a energia de Mãe Iemanjá. Existem formas simples e sinceras:
1. Tome banhos com ervas de Iemanjá. Um banho com alfazema, rosa branca e jasmim aos sábados é uma das conexões mais diretas e acessíveis com sua energia. Faça com intenção e gratidão.
2. Acenda velas azuis e brancas. Aos sábados, com uma prece de gratidão pela vida, pela família e pelas águas que sustentam o mundo.
3. Ofereça flores à água. Se você tem acesso ao mar, rio ou lago, ofereça flores brancas ou azuis com uma prece sincera. Iemanjá reconhece o gesto mesmo quando feito sem grande cerimônia.
4. Cuide das suas emoções. Iemanjá governa as águas interiores — as emoções. Honrá-la é também honrar sua própria vida emocional: terapia, meditação, conversa sincera com quem ama.
5. Pratique o acolhimento. A natureza de Iemanjá é acolher. Ser gentil, ouvir quem precisa ser ouvido, cuidar de quem está ao seu redor — esses são atos de devoção tão poderosos quanto qualquer ritual.
Explore as orações e pontos cantados de Iemanjá: Iemanjá Rainha — Ponto de Umbanda | Como é Lindo o Canto de Iemanjá
Perguntas Frequentes sobre Iemanjá
Quem é Iemanjá na Umbanda? Na Umbanda, Iemanjá é a Orixá da Geração — regente da Segunda Linha, mãe protetora e divindade das águas. É considerada a mãe de quase todos os orixás e governa as emoções, a fertilidade, a família e as águas em todas as suas formas.
Qual é o dia de Iemanjá? O dia sagrado de Iemanjá é o sábado. A principal data festiva é 2 de fevereiro, quando é celebrada em todo o litoral brasileiro, especialmente em Salvador. No Rio de Janeiro, é homenageada no Réveillon. Em São Paulo, em 8 de dezembro.
O que significa Odoyá? “Odoyá” é a saudação sagrada a Iemanjá, que significa “Salve a Senhora das Águas!” ou “Salve a grande mãe!”. É a forma de reconhecimento e reverência ao orixá.
O que oferecer a Iemanjá? Flores brancas e azuis, perfumes, espelhos, pentes, mel, frutas claras, manjar branco e velas azuis e brancas são as oferendas mais tradicionais. Devem ser entregues próximas à água, com intenção clara e coração aberto.
Quais são as ervas de Iemanjá? Alfazema, lavanda, jasmim, rosa branca, flor de laranjeira, hortênsia, lágrima de Nossa Senhora, musgo marinho, pata de vaca e malva branca são as principais ervas sagradas de Iemanjá.
Como saber se sou filho de Iemanjá? A identificação confiável vem do jogo de búzios com um babalorixá ou ialorixá experiente, ou da indicação de um médium em terreiro de Umbanda. Características como forte senso maternal, profundidade emocional, lealdade intensa e conexão com as águas podem ser indícios, mas não substituem o jogo.
Qual a diferença entre Iemanjá na Umbanda e no Candomblé? No Candomblé, Iemanjá possui várias qualidades distintas e é venerada com cantos em iorubá, sendo considerada “protetora de todas as cabeças” (importante no Bori). Na Umbanda, é a regente da Segunda Linha — a Linha da Geração — e é celebrada em português, com ênfase em seu papel materno e protetor do lar e das emoções.
Por que Iemanjá é tão popular no Brasil? Porque ela representa algo que ressoa profundamente no coração do povo brasileiro: a mãe que acolhe todos, sem distinção. Além disso, o Brasil é um país com mais de 7.000 km de litoral — a proximidade com o mar tornava Iemanjá uma presença cotidiana para pescadores, escravizados, colonos. E o sincretismo com Nossa Senhora ampliou ainda mais seu alcance.
Conclusão: A Grande Mãe que Abraça Todos
Iemanjá atravessou o oceano — literalmente. Veio nas embarcações negreiras como memória e fé, sobreviveu à opressão como resistência espiritual e se transformou na divindade mais amada do Brasil.
Ela não é apenas a Rainha do Mar. Ela é a prova viva de que o amor maternal não tem fronteiras, de que a fé resiste a qualquer corrente, de que as águas que aprisionaram um povo podiam ser ressignificadas como proteção e abraço.
Quando você olha para o mar e sente aquela mistura de grandeza e humildade — aquele chamado inexplicável das ondas — está sentindo Iemanjá.
Odoyá, Mãe Iemanjá! 🌊



